Tenho para mim que se olhássemos à vida privada dos maiores génios da humanidade poucos sobrariam para entrar no paraíso. Sigmund Freud prova isso mesmo em poucos parágrafos de cartas que escreveu a Martha Bernays entre 1882 e 1886. Os excertos transcritos são só o levantar de um véu que pode provocar dores de barriga aos mais sensíveis. Comprova-se, mais uma vez, que a loucura mora do outro lado da medalha da genialidade.
Excertos da correspondência de Sigmund Freud para Martha Bernays:
«Bem sei que não és bela, no sentido em que o entendem pintores e escultores, e, se insistes na palavra exata, tenho de confessar que não és. [Mas] é nos teus olhos que quero ver se és bela, nos teus beijos reconhecer se és bondosa, e ler nas tuas respostas se és inteligente. Além disso quero dar-te os parabéns pelo teu aniversário e alegrar-me porque agora és mais mais minha do que antes. […] Agora são 15:30, vou a correr visitar os doentes, senão a minha Martinha ainda chega aos 31 anos velha solteirona.» (2.8.1882)
«Gostaria de poder orgulhar-me por a tua beleza não ser visível para todos os olhos, e apenas para os da amizade e do amor; mas as pessoas insuportáveis, não contentes por te porem nos píncaros da lua, ainda por cima te acham muito bela, o que estraga o meu prazer.» (3.8.1882)
«Se me amas não te compares com outras jovens; […] eu poderia compreender esse desejo numa rapariga que quisesse, por exemplo, ser a rainha de um baile, numa noite; mas que a minha Martha, que não quer ser mais do que a minha dona e companheira de vida, se preocupe se tem cabelo loiro, verde, azul ou vermelho, não entendo. O meu pensamento é só este: a minha namorada partilha comigo tudo o que lhe passa pela cabeça, o que por vezes também inclui alguma vaidade envergonhada. Mas a minha Martha deve continuar assim e não se retocar na nossa correspondência. […] A beleza dura pouco e nós queremos viver juntos uma longa vida. Quando o brilho é o viço da juventude passam, a beleza está na bondade e inteligência que transfiguram o rosto, e então a minha Martha chega ao nível das outras mulheres.» (3.8.1882)
Autobiografia não escrita de Martha Freud baseia-se essencialmente nas cartas de Sigmund Freud e Martha Bernays, escritas durante o noivado, entre 1882 e 1886, e publicadas pela primeira vez em quatro volumes, entre 2011 e 2019 (Editora Ficher).
